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Casos de abusos de poder de veteranos sobre os ingressantes, retaliação por gênero, além de trocas sexuais dentro das repúblicas de Araraquara. O assunto foi levantado nesta sexta-feira, na Câmara Municipal de Araraquara, durante a audiência pública da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa de São Paulo que investiga as violações dos direitos humanos e demais ilegalidades ocorridas no âmbito das Universidades paulistas nos 'trotes', nas festas ou no seu cotidiano acadêmico.
O Plenário da Câmara ficou lotado durante a audiência presidida pelo deputado estadual Adriano Diogo (PT), responsável pela CPI. Uma estudante de Letras afirmou não existir um trote bom, principalmente para as mulheres com dificuldade em conseguir moradia. “As meninas passam todo o tempo em uma situação de vulnerabilidade em uma carta de trote eterno”, diz a jovem afirmando ter ciência de trocas sexuais, além de relatos de denúncias de até estupros coletivos com a menina alterada por bebida ou drogas.
Trote violento
Uma jovem de 26 anos, que se formou este ano em Ciências Sociais, contou que quando chegou a Araraquara, em 2008, foi surpreendida por um trote violento. Ela era obrigada e beber por funil semelhante ao de combustível. Durante o depoimento, a então estudante, lembrou que o trote era mais pesado aos candidatos que buscavam uma vaga na república. Outro universitário lembrou que o discurso não pode ser moralista porque o álcool e as drogas estão presentes no dia-a-dia. Estudante do 6º ano do curso de Ciências Sociais da Unesp de Araraquara, um outro jovem conta que o primeiro contato que teve com os trotes foi por meio de publicidades de escolas particulares. “Sugiro que isso acabe.” Ele morou em uma república e afirmou ter sido obrigado a vestir-se de mulher. “Eu me senti humilhado.” O jovem ainda afirmou ser comum o circuito das repúblicas, além do trabalho forçado a pedido dos veteranos. “Eu precisava carregar mais de 150 sacos de gelo e isso me dava dor nas costas.”
Jogos Mortais
A professora de Letras, da Unesp de Araraquara, Silvia Adoue, compara os trotes com os “Jogos Mortais” mostrados no cinema, haja vista que um estudante morreu recentemente. O caso envolveu o estudante de Engenharia Elétrica Humberto Moura Fonseca, de 23 anos, que morreu no dia 28 de fevereiro, em Bauru, durante uma festa ligada a universidade, após consumir vodca em uma competição. “O trote é o rosto visível de uma violência que dura o ano inteiro.” Ela afirma ter recebido uma série de denúncias, mas citou duas durante a audiência em que estudantes que ingressam na universidade. Uma envolvia uma gaiola de bebida. A outra em que duas meninas foram obrigadas a se manter em posição desconfortável enquanto os veteranos as pressionavam sem se incomodar com a presença dos pais delas. “Não é uma questão só de república e, sim, do ambiente estudantil em si. Nós precisamos proteger essas meninas e digo isso com muito temor.”
CPI no interior
Para o professor Antônio Almeida, da Esalq de Piracicaba, que é especialista na área de trotes das universidades, uma audiência da CPI no interior é importante porque a sociedade está chocada com a série de fatos envolvendo o cotidiano acadêmico. “O trote é parte de um processo de seleção dos amigos e não tem nada a ver com a universidade”, cita o professor lembrando que a prática é perversa, mas em algumas escolas tem caráter institucional, ou seja, é violento e passa de um ano para o outro.
Na Esalq, segundo o professor, a universidade vai investigar esse tipo de ação para tentar abolir o trote, incluindo, o aparente simples pedágio. “Chamar de bixo e bixete não ajuda em nada”, destaca o professor lembrando que o trote estigmatiza o estudante por meio da cor da pele ou de uma característica física. “Aqueles alunos que lutam por mais igualdade devem se afastar imediatamente dessa cultura.” A audiência da CPI foi apoiada pelo estudante universitário e vereador em Rincão, João Matheus Bolito. Estiveram presentes, ainda, os representantes dos vereadores Gabriela Palombo (PT), Edio Lopes (PT) e Donizete Simioni (PT), além do próprio vereador Rodrigo Buchechinha (SDD). Durante a coleta de informações foram reunidas informações de repúblicas e até o calendário de festas ligadas a Unesp, em Araraquara.
CPI
Já foi concluído um relatório parcial da CPI pedindo a responsabilização civil, penal e administrativa aos diretores de associações atléticas e centros acadêmicos. Além disso, os deputados querem a abertura de inquérito policial dos crimes de estupro relatados nos depoimentos de diversas estudantes feitos à CPI nos últimos meses, e de inquérito civil para apurar possíveis práticas de improbidade administrativa contra dirigentes de universidades suspeitos de omissão na apuração e punição dos casos de violação de direitos humanos. A CPI da Assembleia Legislativa foi criada no final do ano passado depois que relatos de denúncias de abusos sexuais na Faculdade de Medicina da USP vieram a público. Presidida pelo deputado Adriano Diogo, a CPI ouviu depoimentos de estudantes vítimas de abusos, diretores de faculdades, professores e ex-alunos. O relatório Final deve ser apresentado até o dia 10 de março, quando terminam os trabalhos da CPI.
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